Amor: o que é, para que serve e como achá-lo
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Todo ser humano é perseguido por um idêntico fantasma. Durante os dias e ao longo das noites, qualquer um de nós, em qualquer lugar do mundo, é importunado pela mesma assombração: o temor de estar desperdiçando sua vida.
É um fantasma que nos atormenta sussurrando dúvidas. “E se você estiver no caminho errado? E se você estiver perdendo tempo aí, nesse emprego, nessa faculdade, nesse projeto, nessa relação? E se você estiver, neste exato momento, jogando fora os minutos preciosos em que poderia estar sendo verdadeiramente feliz em outro lugar, em outras circunstâncias, com outro alguém?”
Até os mais ricos e os mais afortunados são vítimas desse espectro, pois a natureza humana é de tal forma inquieta que, não importa qual a nossa situação, uma parte de nós sempre cogita se não há outra forma de vivermosmais e melhor.
E nosso perseguidor é inclemente, pois seu poder consiste justo no fato de que, sim, muitas vezes ele pode estar certo.
Enquanto estiver sob seu jugo, nenhum homem ou mulher pode se considerar livre, tampouco sentir-se inteiramente vivo. Mas é difícil escapar de seus murmúrios, pois ele maneja uma arma terrível, que força alguma é capaz de deter: a passagem do tempo.
É como se estivéssemos dentro de um labirinto, assombrados por dúvidas. E para escaparmos desse lugar, há apenas três rotas de fuga.
A primeira delas é o entorpecimento através das drogas, incluindo a embriaguez do álcool. Mas o preço, o vício, é amargo demais. E esse caminho exige uma espécie de loucura. Quanto mais consumimos, mais o fantasma eleva o volume de seus murmúrios, até passar a gritar, de modo que precisamos sempre aumentar a dose para ensurdecer.
A segunda é pelo êxtase religioso. Mas o preço é a renúncia da vida comum, algo pesado demais. E esse caminho exige uma espécie de coragem. Com exceção dos santos e dos iluminados, poucos de nós têm a força necessária e raros são capazes de abraçar uma fé que não permite o exercício saudável da dúvida.
Em ambos os trajetos de fuga para longe do fantasma, a pessoa basta a si mesma e paga o preço sozinha. Sempre sozinha.
Mas há uma terceira forma de eliminar aquele fantasma. Seu preço não é amargo ou pesado, mas o caminho exige uma espécie diferente de coragem e de loucura.
Essa forma, como vocês podem ter deduzido do título deste artigo, é o amor.
O amor elimina todas as dúvidas, todos os questionamentos. Quando amamos, temos certeza sobre o lugar em que precisamos estar: ao lado daquela pessoa, não importa se num quitinete apertado ou num vagão lotado do metrô. Estamos convictos de que não há melhor forma de aproveitar cada minuto de nossas vidas senão compartilhando todos os instantes com uma só pessoa.
Aquele que ama enfrenta o fantasma como a chama de uma lâmpada lida com a sombra – trata-o como um jogo de projeções sem substância.
O poder dessa luminosidade está no fato de que o amor não é passivo, não é o débil suspirar que os românticos imaginam. O amor tem dentes para morder, é capaz de tirar sangue dos adversários.
E também possui uma estratégia capaz de se esquivar daquela arma terrível, a passagem inexorável do tempo. O truque consiste no fato de que o amor cria seu próprio tempo, separado daquele em que vivem todos os que não sabem amar. Dois amantes constroem em torno de si um casulo no qual são capazes de meter toda a eternidade no reduzido espaço do enquanto dure.
Mas a verdade é que, enquanto não conhecer o verdadeiro amor, você não acreditará nele. Você o confundirá com a paixão, com o desejo, com a posse. Você o explicará de várias formas para desacreditá-lo. Ele só passará a ter existência e começará a mostrar seu real poder, seus dentes, suas armas e seu casulo do eterno quando for vivenciado concretamente.
Até lá, ele será uma lenda tão fantasmagórica quanto aquela outra assombração, com a diferença de que não lhe persegue – você é que deveria buscá-lo. Afinal, o amor é a única forma de sairmos do labirinto em que somos acossados pela nossa própria inquietude.
Para encontrá-lo, você precisa escolher o caminho que leva a ele. Assim como os outros dois caminhos para fora do labirinto, o amor também cobra um preço. Como no êxtase religioso, exige um tipo específico de coragem. Como no entorpecimento, requer uma espécie de loucura. O amor é, ao mesmo tempo, vício e renúncia.
O preço do amor é a entrega total. Não há posse no amor, apenas doação. A loucura está em acreditar que essa doação não nos subtrai nada, mas, ao contrário, ela multiplica. O amor exige que confiemos incondicionalmente não apenas em quem amamos, não apenas em nosso próprio sentimento, mas também no fato de que a vida pode, a despeito de todos os contratempos e ultrajes a que somos submetidos, ser milagrosamente sublime.
A loucura que o amor requer consiste em vivenciá-lo sem alimentar expectativas. Pois é preciso viver inteiramente o momento presente para que, nele e enquanto dure, crie-se aquele tempo especial, aquela eternidade em que os amantes vivem em comunhão.
E a coragem que o amor requer está em não se intimidar com o julgamento dos que, ainda perseguidos por aquela assombração, ainda presos no labirinto, não podem compreender como age e pensa quem seguiu o caminho para fora da prisão. A eles, aos “normais”, quem ama parece uma espécie de louco. Porém, doidos são aqueles que se deixam subjugar por um fantasma.
Pode parecer que estou falando de algo fantasioso, como se o amor fosse oPapai Noel dos adultos – ao contrário, falo de uma das únicas realidades que há nesta vida, daquilo cuja compreensão é vital para nossos destinos, tanto individual como coletivamente, pois nos leva para fora de uma prisão. Pode parecer que estou falando de algo semelhante a um conto de fadas – ao contrário, falo de uma experiência desafiadora e difícil, que só é acessível através da total entrega, da coragem e de uma ousadia próxima à loucura. Pode parecer que estou falando de almas gêmeas – ao contrário, estou falando de um sentimento que podemos nutrir não por uma, mas por várias pessoas em nossa história pessoal.
Mais ainda, estou falando de um sentimento que pode transcender os limites da relação romântica de um casal e, compartilhado entre outros seres humanos, conduzir o nosso mundo realmente para um amanhã melhor. O amor é, por excelência, o grande poder revolucionário. Por isso, os artigos desta seção Todo amor que houver nesta vida tratarão, com franqueza, sobre esse caminho para fora do labirinto – e sobre as armadilhas que podemos encontrar durante a jornada.
ESCRITO POR VICTOR LISBOA
Editor de Ano Zero, colunista do Papo de Homem e autor do blog Minha Distopia.
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Felipe Fonseca